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Opinião

"Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor"

* Por Candice Almeida, professora de Redação do Colégio Positivo e assessora pedagógica de Redação no Centro de Inovação Pedagógica, Pesquisa e Desenvolvimento (CIPP) dos colégios do Grupo Positivo

"Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor"
(Foto: Divulgação)
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“Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor”. Tive que retomar os versos de Fernando Pessoa com meus alunos na última aula que tivemos. Desgastados pela pandemia, pelo medo de morrer, pelo desemprego de parentes, pelo ano em casa, pelo descaso do Estado, eis que surge mais uma grande perda: o adiamento do vestibular da UFPR. E, como se não bastasse, a UEPG, outra importante instituição, também adiou o processo seletivo para maio. Independente do apoio à decisão - afinal de contas, o risco sanitário é concreto - os transtornos são, sim, lamentáveis.

O ano de vestibular já, por si só, é um momento difícil para o aluno. Incertezas quanto à carreira, pressão pela conquista da vaga, noites mal dormidas, dias mal acordados; soma-se isso a dúvida da realização de um processo seletivo que define a vida de muitos, para o qual, há exaustivos 14 meses, vários vêm se preparando. Horas e horas de estudo. Além de tudo, a incerteza das datas elimina o foco, destrói a perseverança. Como estabelecer uma rotina quando não se sabe a meta? E quando parecia haver uma, eis a notícia do adiamento. Não há ansiedade que aguente. Não há como glamourizar o momento. É um baque e ponto.

No entanto, frustrações e preocupações fazem parte do cérebro humano. É deveras importante entender que, como diria Caetano, “a vida é real e de viés”. Invalidar sentimentos ou apostar tão somente na positividade é deletério para a formação. O que nos mantêm vivos e alerta é justamente o contraditório. Empatia, inclusive, vem daí. Entender a decisão do outro e lidar com ela.

Desnecessária essa tirania da felicidade, essa ideia imposta pelo capitalismo, pelo tudo-está-bem-ismo. Nem sempre tudo está bem, a vida é feita de desafios. Máscaras? Só a N95, por favor. De que adianta todos usarem o mesmo disfarce? No fim do dia voltamos a ser quem somos de qualquer modo: inseguros, ansiosos e preocupados. Lembremos René Descartes: “Mascarado, eu avanço”. Infelizmente, a máscara à qual ele se refere não são as que eu queria ver quando saio de casa.

Acreditemos que, de fato, não havia alternativa. Por mais traumático que seja, o vestibular pode esperar; a vida, não. Temos uma nova data e, com ela, uma ressignificação, o marco de uma nova meta, de novos desafios e conquistas. Essa fantasia neoliberal da felicidade só se verifica mesmo na ficção, na utopia. A vida real são os momentos, como sempre diz meu pai. Outros tantos ótimos virão. Outros tantos desesperadores darão também o ar da graça.

Não quero minimizar a dor e a raiva daqueles que estão esperando à la Godot, em um 2020 que insiste em não terminar. No entanto, agora é a hora de nós, professores, reafirmarmos nosso compromisso de ensino e de acolhimento com os alunos para que o malogro desse certame seja apenas mais uma pedra no meio do caminho. As mesmas lágrimas salgadas que alimentaram nosso novo ‘Mar Português’ ainda serão de alegria pela conquista da vaga, apesar de tudo. O Bojador há de ser vencido novamente. A boa esperança se encontra logo ali. Queridos alunos, preparem-se, 28/03 os espera. Ressignifiquemos.

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