
COM ASSESSORIAS - A partir de 2026, julho é oficialmente o Mês Nacional das Olimpíadas Científicas e do Conhecimento. A relevância desses eventos, que a lei passou a reconhecer, é maior do que a maioria das pessoas imagina: segundo o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), o Brasil tem hoje cerca de 130 olimpíadas científicas ativas, desde competições de matemática e astronomia até história e linguagens. No ano passado (2025), mais de 26 milhões de crianças e adolescentes participaram dessas provas.
A lei é também uma resposta à ampliação do espaço das olimpíadas no planejamento das escolas. Se no passado as competições eram vistas como exclusividade de alunos com alto desempenho, hoje especialistas apontam que essas iniciativas são valiosas para qualquer aluno, contribuindo para desenvolver competências socioemocionais, fortalecer a autonomia dos estudantes e desmistificar disciplinas tradicionalmente consideradas difíceis e inacessíveis
Foi o que aconteceu com Israel Leonardo Los Barbosa, que tinha apenas 7 anos quando levou para casa a primeira medalha da Olimpíada Canguru de Matemática. De lá para cá, Israel não ficou uma edição sequer da Canguru sem premiação. Hoje com 14 anos, o aluno do Elite Rede de Ensino de Ponta Grossa (PR), conquistou a medalha de ouro na edição 2026 da prova. Israel já acumula medalhas em outras seis competições diferentes: OBMEP, OBI, OBA, OPMAT, OPRM e OVF, desenvolvendo tanta afinidade com as matérias que já se interessa em seguir carreira nesta área.
O que chama atenção na trajetória dele, no entanto, não é a estante de medalhas. É o método. Perguntado sobre como se prepara, Israel fala sobre a importância de praticar: "minha rotina consistia em resolver provas de edições anteriores e, o mais importante, corrigir cada uma delas detalhadamente com o apoio da escola e da minha família. Esse processo de analisar e aprender com os meus próprios erros foi fundamental para entender o estilo das questões e superar as minhas dificuldades a tempo”, afirma.
É exatamente aí, na relação com o erro e com a curiosidade, que educadores enxergam o maior ganho pedagógico dessas competições. Para Marcelo Tavares, Diretor Pedagógico do Elite Rede de Ensino, o impacto das competições se organiza em três frentes bem definidas: mentalidade de esforço, familiaridade com avaliações externas e a quebra de crenças limitantes.
Como as provas começam já nos Anos Iniciais, essa percepção pode se instalar muito antes da adolescência. "As olimpíadas mostram, desde cedo, que esforço e resiliência geram conquistas e quem participa de olimpíadas desde o Ensino Fundamental, chega ao vestibular com anos de treino em organização, concentração e gestão da ansiedade.", afirma Tavares.
Em competições que premiam cerca de 20% dos participantes em faixas distintas, o aluno mediano tem chance real de sair com algo na mão e é essa experiência que muda a relação da criança com a disciplina. “Participar de olimpíadas de matemática, que celebram até as pequenas conquistas, com menções honrosas, por exemplo, ajuda a quebrar paradigmas e crenças que a criança muitas vezes traz de casa, como a ideia de que 'não sou bom em matemática' ou de que 'matemática não é para todo mundo'", conclui.
A Olimpíada Internacional Canguru de Matemática foi criada na França e hoje é aplicada em mais de 100 países. O Brasil é, há cinco anos consecutivos, o país com mais participantes do mundo. A explicação para essa popularidade está no desenho da prova: em vez de cobrar a aplicação de fórmulas, ela apresenta situações-problema que exigem raciocínio lógico, leitura atenta e criatividade. É um formato que, na prática, permite que o aluno chegue à resposta por caminhos próprios.
A abordagem da Canguru conversa com uma linha de pesquisa que vem ganhando espaço nas escolas brasileiras, da pesquisadora Jo Boaler, da Universidade Stanford, que defende o desenvolvimento do chamado "senso matemático". A tese é simples: as crianças precisam ser orientadas a tratá-la como uma linguagem, tão cotidiana quanto a língua materna. Saber o que é metade. Entender o que significa, de fato, perder 30% de alguma coisa. Reconhecer um ângulo reto. "Essas noções fazem parte do dia a dia, mas poucas pessoas realmente entendem o que significam", observa o especialista do Elite. É precisamente esse tipo de raciocínio estratégico acima de memorização que as olimpíadas científicas cobram.
O especialista também aponta um efeito colateral pouco discutido do formato: a criança aprende que resultado ruim é informação, não sentença. "Ela entende que resultados podem ser aprimorados diante de mais preparação e prática deliberada, quando o aluno percebe que seu esforço é reconhecido, a olimpíada deixa de ser motivo de ansiedade e passa a representar um desafio saudável”, conclui Tavares.
No mês em que o Brasil celebra também o Dia Nacional da Ciência, o ponto que educadores fazem questão de reforçar é que a investigação científica nasce em perguntas cotidianas. Ao estimular formulação de hipóteses, resolução de problemas, pensamento crítico e experimentação, as olimpíadas do conhecimento funcionam como porta de entrada para uma cultura de curiosidade e desenvolvem competências que acompanham o estudante muito além da escola: autonomia, resiliência, persistência e capacidade analítica.