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Opinião

Diante da dor dos outros

*Por: Daniel Medeiros - Doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo

Diante da dor dos outros
(Foto: Divulgação)
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A importância de nunca esquecer as atrocidades que os humanos são capazes de perpetrar é a de lembrar que o “mal esteve aqui”, diz a ensaísta Susan Sontag, no livro cujo título empresto para esse breve desabafo. Rememorar um acontecimento não serve apenas para prantear as vítimas ou honrá-las, dando-lhes a singularidade que buscaram em vida, mas também para apontar o dedo para os responsáveis pelos acontecimentos que vitimaram os que não puderam escapar da presença dessa força tão destruidora quanto evitável. Quando dividimos uma história comum de horror, de perda desnecessária, de sofrimento por alguém que parte antes que o tempo natural o reclame, buscamos registrar não apenas nosso consenso de pessoas civilizadas, mas nosso pacto íntimo de opositores aos causadores do mal. E o mal não é o acaso. A ventania e as chuvas podem destruir a plantação uma vez, lembra-nos Maquiavel a respeito da Fortuna, mas na segunda vez em que as chuvas vierem e as terras forem varridas por suas forças, terá sido um crime de Negligência e não ato do destino.

O propósito de retratar a escalada do sofrimento, diz Susan Sontag, é incomodar-nos sobre as razões de aquele sofrimento não acabar justamente porque não fizemos nada sobre isso: narrativas podem nos levar a compreender. Fotos fazem outra coisa: nos perseguem.

Um advérbio mórbido e irônico, quase sarcástico, que é pronunciado com grande profusão nesses momentos, pelos espectadores das tragédias provocadas, é o “infelizmente”. A constatação, dita como explicação de algo que lhes parece de alguma maneira lógico, funciona como um tapa na cara dos que ficam para carregar os caixões dos amados, alisar as roupas de cama e as calças e blusas penduradas, inúteis, nos armários, com seus cheiros ainda vívidos. Infeliz é quem viabiliza, permite, contribui, proporciona o mal de apostar na escuridão com as gavetas cheias de lanternas e pilhas.

Não há escala para medir a dor dos outros. Não há ênfase capaz de romper a capa exterior do indivíduo e mostrar o seu interior dilacerado. Não há profusão de imagens, de covas abertas ou hospitais lotados e menos ainda números enfileirados com muitos zeros ou gráficos como cadeias de montanhas que permitam fazer-nos compreender a perda de alguém que poderia estar aqui respirando e sorrindo ou mesmo de alguém que não sorrisse e nem se importasse, mas que exercesse o direito básico de não ser morto pela convicção ideológica ou pela brutalidade sem causa de quem quer que fosse.

Por outro lado, o risco de uma exposição constante ao horror, das cenas do crime continuado, é a perda da sensibilidade. Com os dias se sucedendo diante dos números e dos gráficos, como não despersonalizar a dor pelas pessoas que morreram? Como não fazer como os fumantes que, depois do choque inicial, acabam brincando com as imagens estampadas nas carteiras de cigarro e que foram colocadas ali para fazê-los refletir sobre o que o fumo faz com seus corpos?

Por isso, é preciso destacar não apenas a tragédia, mas, igualmente, a vileza dos que a provocaram. Diante da dor dos outros, do sofrimento inominável, da perda irreparável, é preciso olhar firme para o juiz e para o carrasco. E jamais esquecê-los.



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