Correio dos Campos

Parque Histórico dará destaque ao Plantio Direto

O museu irá contar a história da agricultura que se tornou destaque na região com a implantação do Sistema do Plantio Direto na Palha
10 de junho de 2021 às 18:17
(Foto: Divulgação)

COM ASSESSORIAS – O Parque Histórico de Carambeí, memorial da imigração holandesa e maior museu histórico a céu aberto do Brasil, possui uma das coleções de tratores mais completas do país, composta por: tratores, colhedeiras, arados, semeadeiras, adubadeiras, segadeiras e debulhadora de milho. O espaço museal foi pensado com o intuito de contar a história da agricultura que se tornou destaque na região, auxiliou no desenvolvimento econômico e social, com o Sistema de Plantio Direto na Palha (SPD) transformou a história rural.

Franke Dijkstra é um dos idealizadores do Parque Histórico de Carambeí, um dos precursores do Plantio Direto, apaixonado por tratores e implementos agrícolas, há décadas restaura máquinas antigas sonhando com um lugar para expor esse acervo e contar a história rural. “A agricultura passou por grandes transformações e é importante documentar essa mecanização, preservar e transmitir essa história. Pensando nisto, venho reunindo tratores e implementos agrícolas, restaurando essas relíquias para expor em um museu e a fundação Parque Histórico possibilitou um espaço dedicado a coleção agrícola. Hoje temos um dos museus de tratores mais completos do Brasil e com máquinas que parecem novas”.

Karen Barros, historiadora do Parque Histórico de Carambeí, estuda a história da agricultura e é responsável por trazer por meio de pesquisas a trajetória agrária do município para o protagonismo das ações realizadas pelo museu. “Para nós é importante trabalhar esse assunto, mostrar como as técnicas agrícolas marcam os processos e as transformações na história. Pensando na história da agricultura, entender determinada técnica ou processo é de suma importância para compreender o hoje. A forma como a agricultura é desenvolvida vem de um lugar e um momento histórico. No caso do Plantio Direto, Clube da Minhoca e dos estudos do solo que são técnicas que deixaram legado”, a historiadora afirma que é preciso apresentar ao público essa temática que se tornou referência no setor agrícola.

No início o solo da região era arenoso, com baixa fertilidade e o cuidado com a terra não era prioridade. O manejo do solo com arados e grades ocasionava a perda de nutrientes e gerava a erosão. Foi com a implantação do SPD, técnica trazida ao Brasil por Herbert Bartz e a união com os agricultores Franke e de Manoel H. Pereira (Nonô) que o modelo de plantio se fortaleceu e tornando-se referência para o setor.

“Carambeí possuía um solo ruim para o plantio em grande escala, os livros que contam a história da colônia mostram isso, e, relatam que os agricultores da região possuíam muitas dificuldades em engatar uma produção. Com os estudos de técnicas mais avançadas pode criar-se planos para o melhoramento desse solo. Sabemos que Carambeí é uma cidade com forte tradição agrícola e pecuária, mas foi sempre assim? Acredito que as técnicas do Plantio Direto na Palha aplicadas aqui foram muito importantes para desenvolver essa agricultura, e principalmente para difundir esse conhecimento”, explica Barros.

O método do Plantio Direto revolucionou a agricultura, trouxe inúmeros benefícios ao solo, diminuiu a perda da produção gerada pela erosão ocasionada pela água ou pelos ventos e consequentemente gerou aumento na produtividade. O modo de plantar passou a ser diretamente na palha, os restos da plantação anterior a partir da implantação desta técnica permanecem na lavoura e se tornaram uma camada protetora. Isto permite uma melhor absorção e conservação da água no solo, transformam-se em adubo natural para a próxima plantação, geram ações químicas, físicas e biológicas que elevam o teor de matéria orgânica proporcionando o aumento da biodiversidade. Essa ação colabora para a preservação do meio ambiente. A terra não é mais arada, o que acusava a erosão, a ferramenta mais utilizada na lavoura é a semeadeira que com o passar dos anos passou por transformações para obter um melhor desempenho.

O novo modelo agrícola enfrentou resistência no início, pois a técnica propunha mudanças que até então não eram tratadas no meio acadêmico e seus defensores não eram técnicos. “Lá nos anos 1970 toda a pesquisa e ciência na agricultura estava baseada no plantio convencional, que dependia da adubação com fertilizantes químicos e pesticidas, inclusive havia um ‘preconceito’ por parte de muitos pesquisadores que não reconheciam o movimento do Plantio Direto como algo válido, pois consideravam que uma mudança tão significativa na forma de produção não poderia vir de agricultores desqualificados (sem um diploma)”, relata a bióloga e pesquisadora Marie Bartz.

Clube da Minhoca – Grupo de Estudos PD

Os adeptos da prática, pioneiros do Plantio Direto, sentindo a resistência, se reuniram para trabalhar e pesquisar o tema, criaram o Clube da Minhoca. “Os agricultores se uniram e fundaram o chamado Clube da Minhoca em 1979 nos Campos Gerais, que tinha por intuito discutir as problemáticas encontradas no Plantio Direto e procuravam por soluções nas trocas de informações, experiências e ideias. Essa foi uma iniciativa capitaneada por Nonô Pereira, Franke Dijkstra e meu pai (Herbert Bartz) que agregava agricultores, profissionais e extensionistas que se aliavam com a causa do Plantio Direto”, comenta a bióloga.

A minhoca, que deu nome ao grupo de estudos, é o símbolo de que a prática é benéfica ao meio ambiente e que estava dando certo o novo sistema agrícola. Atualmente o Clube da Minhoca se transformou em Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto, Marie explica como o processo aconteceu. “Foi chamado Clube da Minhoca pois após alguns anos de adoção do Plantio Direto as minhocas voltaram a aparecer nos campos e este é um organismo considerado indicador de qualidade do solo, ou seja, um solo saudável tem minhocas. Portanto, a minhoca é o símbolo do Sistema Plantio Direto no Brasil. O Clube da Minhoca foi a entidade mãe para a fundação dos inúmeros Clubes Amigos da Terra pelo Brasil na década de 1980, especialmente nos Estados do Sul, no entanto são poucos os que existem hoje ainda. Em 1992 o Clube da Minhoca se tornou a Federação de Plantio Direto na Palha (FEBRAPDP), que em 2012 se tornou a Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação e este ano definitivamente se tornou a Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto, mantendo a abreviatura FEBRAPDP. As mudanças no nome da federação ocorreram conforme as demandas e evolução do Sistema Plantio Direto, que se inicou como Plantio Direto (técnia em plantar sobre os restos vegetais – palha – da cultura anterior) com os pioneiros e evoluiu para Sistema Plantio Direto no final da década de 1980 e que obrigatoriamente é regido por três princípios: 1. O mínimo revolvimento do solo; 2. A manutenção permante da cobertura do solo (plantas vivas e/ou mortas); e 3. A rotação e a diversificação de culturas”.

SPD será abordado nas ações do museu

A trajetória do SPD faz parte da histórica de Carambeí, do desenvolvimento social e econômico, não pode ser desvencilhada da história narrada pelo museu, explica a historiadora. “Para nós enquanto museu, é necessário falar sobre esse momento porque é a história do município. O senhor Franke que é um dos porta vozes dessa técnica, é daqui! Um imigrante que viveu um momento muito importante da agricultura que foi a sua modernização na década de 1970. No museu temos essas peças, esses maquinários que não contam essa história por si só, elas precisam ser musealizadas e descritas por nós. Não é apenas a história da agricultura, de técnicas e produtos. Mas do trabalho, do social, da labuta no campo, da formação desse território que é os Campos Gerais”.

O senhor Dijkstra reforça a fala de Barros e afirma que a instituição museal precisa ser esse canal de difusão desse conhecimento. “Não tem como contar a história de Carambeí sem falar da agricultura que trouxe o desenvolvimento social e econômico para a região, o Plantio Direto na Palha que foi essencial para o progresso. Como museu, o Parque Histórico precisa difundir a história agrícola para as futuras gerações, suas transformações e mostrar que a agricultura, por meio do Sistema do Plantio Direto na Palha, colabora para a preservação do meio ambiente”.

O Núcleo Educativo do Parque Histórico é o setor responsável por criar a dinâmica entre as pesquisas feitas pelo Núcleo de História e Patrimônio e o público, por dar formato a história difundida pela instituição. Lucas Kugler, historiador do setor educativo, quando questionado sobre implantar a narrativa agrícola em um museu histórico relata que as pesquisas realizadas na instituição são multidisciplinares para poder trabalhar os diferentes temas que podem ser abordados e dar a cada um o seu devido papel de destaque. “Precisamos compreender o vasto campo de informação que uma peça possuí, recorrendo muitas vezes à interdisciplinaridade. Dentro dos campos da História podemos encontrar a História Ambiental que busca estudar e compreender as relações do ser humano com o meio ambiente. Dentro deste estudo, é fundamental que o historiador domine algumas informações técnicas de outras áreas, como a química e a geografia para falar de solo e processos agrícolas, ou então de biologia para dissertar sobre o meio natural durante os processos de transformações desencadeadas pelo homem”.

Sistema Plantio Direto para o público escolar

O Sistema Plantio Direto trouxe inúmeros benefícios para a agricultura e para o meio ambiente, mas muitas vezes por falta de conhecimento no assunto ainda é tratado com preconceito. Pensando nisso Marie sugere que a conscientização sobre o trabalho no campo inicie com as crianças. Destaca que é necessário introduzir o assunto nas classes iniciais e mostrar que o agricultor cuida do meio ambiente. “Sobre as crianças, sim é de extrema importância além de trabalhar a história de nossos agricultores, também o que tudo isso faz de bem e bom para o meio ambiente. O ensino em nossas escolas não valoriza isso, pelo contrário, ainda coloca a nossa agricultura como vilã”, a bióloga ainda comenta que a FEBRAPDP possui um material específico para trabalhar a temática com os pequenos. “No site da FEBRAPDP (www.febrapdp.org.br/literatura-infantil) é possível encontrar um livro destinado para crianças que conta e explica de forma muito simples e clara como meu pai iniciou o PD e qual a importância desse sistema. Tenho relato de muitos adultos que não são da área que após lerem esse livrinho finalmente entenderem a importância e do que tudo isso se trata”.

O Parque Histórico possui um vasto leque de atividades voltadas aos grupos escolares, preparadas pelos historiadores-educadores, com o intuito de trabalhar de forma lúdica e com uma linguagem fácil os temas abordados pelo museu. O SPD por ter revolucionado a história agrícola e por integrar a história de Carambeí contará com ações realizadas para público infantil. “Nesse sentido, é possível inclusive abordar alguns pontos da história ambiental em Carambeí para as crianças. O Plantio Direto é uma técnica agrícola muito importante no contexto agrário da região e que pode ser facilmente compreendida através de explicações interativas. Pensando nesse sentido, o Núcleo Educativo está desenvolvendo novas abordagens para trabalhar com o tema e uma delas será de forma virtual através de vídeos educativos”, explica Kugler.

O historiador ainda ressalta que o trabalho realizado pelo setor precisa de busca constante de conhecimento com o intuito de trabalhar em suas ações os temas abordados pela instituição, dar sentido ao acervo que possui grande significado histórico. “Precisamos estar constantemente atualizados, não apenas para informar e educar os nossos visitantes, mas também para realizar uma mediação que compreenda o contexto de um bem cultural quando este é musealizado. Um bem cultural pode ser entendido como uma peça que carrega consigo uma rede de significados, que haja como um testemunho patrimonial referente à memória de um grupo. Às vezes, de imediato, uma peça (como um instrumento agrícola por exemplo), não nos conta esse tipo de informação. A mediação surge como um interlocutor, uma ponte de diálogo entre o visitante e o objeto”, expõe Lucas.

O trabalho de sensibilização do público sempre aconteceu, no início de modo informal e intuitivo, a nova roupagem que será dada ao Museu do Trator trará a narrativa para torná-lo protagonista dentro do Parque Histórico. “Nos primeiros anos do museu os equipamentos agrícolas e tratores ficavam na Casa da Memória, junto com as outras peças do acervo, quando havia algum evento ou precisava de espaço para alguma atividade era necessário retirar os tratores do lugar. Hoje as máquinas estão em outro ambiente, na Vila Histórica, o espaço destinado ao Museu do Trator está em processo de reestruturação com o intuito de valorizar as máquinas e contar a trajetória do Plantio Direto na região”. O senhor Franke ainda conta que a realização dos desfiles com tratores foi uma outra forma que encontrou para despertar na comunidade interesse por esse legado. “Fizemos muitos desfiles com tratores, desfiles comemorativos nos aniversários de imigração, desfiles do Dia do Trabalho. Ainda pretendemos organizar outros desfiles com tratores, colocar essas máquinas que são relíquias no museu para funcionar, convidar colecionadores de tratores para mostrarem os seus tratores antigos e mostrar a evolução das máquinas agrícolas”.

Serviço:

O Museu do Trator do Parque Histórico de Carambeí, espaço museal preparado para mostrar a trajetória agrícola da região, está em processo de reestruturação com o intuito de valorizar o acervo composto por tratores e implementos agrícolas. Com a nova identidade visual o ambiente trará mais informações sobre o desenvolvimento agrícola na antiga colônia Carambeí, com ênfase principalmente na técnica do Sistema Plantio Direto e para tornar a história rural de protagonista, pois foi com a expansão da agricultura e da pecuária que acarretou o desenvolvimento do município.