Correio dos Campos

E agora, Aliel Machado tinha razão?

26 de Maio de 2018 às 20:30
Foto: Reprodução Youtube

Passado dois anos do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), um dos personagens centrais daquele episódio parece enfim encontrar compreensão por parte da sociedade. Em seu primeiro mandato na Câmara Federal, o deputado mais jovem do Paraná, Aliel Machado (PSB), surpreendeu e contrariou muita gente ao pedir Nova Eleição e votar contra o processo de impedimento da presidente.

Membro titular da Comissão Especial que avaliou o crime de “pedalada fiscal”, Aliel argumentou que, mesmo não concordando com algumas medidas do governo, não podia deixar sua digital num processo comandado por Eduardo Cunha – ex-presidente da Câmara, e pelo vice-presidente Michel Temer (ambos do MDB). A situação do país, segundo argumentou à época, iria se agravar com a entrada de um projeto que não havia passado pelas urnas e que, de acordo com ele, tinha como um dos objetivos acabar com a Lava-Jato, além de promover a retirada de direitos através da famigerada “Ponte para o Futuro”, documento apresentado em outubro de 2015. Para isso, Temer se uniu ao grupo de Aécio Neves (PSDB), que teve o programa de governo semelhante derrotado nas eleições do ano anterior.

Ao votar contra o impeachment e cobrar nova eleição, Aliel foi massacrado na sua base eleitoral. Além de ter a imagem linchada em praça pública (um outdoor com a foto do deputado foi alvo de ovadas na principal rua da cidade de Ponta Grossa), Aliel comprometeu o próprio desempenho na eleição de 2016, quando disputou o cargo para prefeito da cidade.

Dois anos depois aquele período de tensão e inquietude social, o discurso de Aliel faz sentido. Eduardo Cunha foi cassado da presidência da Câmara – depois de manobrar votações e contribuir com as maldades do governo – tendo como destino a cadeia. O próprio Aliel ficou conhecido nacionalmente em um vídeo em que, com dedo em riste no dia da cassação do parlamentar, dizia na cara de Cunha que “lugar de ladrão era na cadeia”. Pouco depois, Eduardo Cunha de fato foi preso por envolvimento em um esquema de corrupção sem precedentes.

Já Michel Temer se manteve no poder, à duras penas, negociando cargos e emendas parlamentares por apoio contra as denúncias que o atingiam – inclusive com gravações comprometedoras. Vários integrantes do seu Governo, principalmente os mais próximos, foram atingidos por graves denúncias de corrupção. Quem não se lembra da mala de dinheiro do assessor especial da presidência Rocha Loures ou das malas com R$ 52 milhões no apartamento atribuído a Geddel Vieira Lima? Ambos eram da cúpula do MDB de Temer. Agora, em maio de 2018, o presidente é causador de mais uma crise em nível nacional: a greve dos caminhoneiros e transportadores parou o Brasil e fez com que o desabastecimento, aquele fenômeno dos anos 1980, voltasse a ser realidade.

A impressão que fica é de que Aliel avisou, mas pouca gente quis escutar. Naquele momento histórico muito delicado, o deputado alertava que, mesmo diante da impopularidade e dos erros da presidente, o governo que a sucederia seria ainda pior, impondo uma pauta que não havia passado pelo aval do voto – portanto dificilmente encontraria legitimidade – e que defendia interesses bastante específicos, boa parte deles contrários aos anseios da população.

E o resultado não demorou a aparecer. O primeiro deles foi a proposta que limita os gastos públicos pelos próximos 20 anos, conhecida como PEC do Teto de Gastos, mas que na verdade é um congelamento nos investimentos do Governo em áreas essenciais – levantamentos mostram que o país pode amargar cerca de 20 mil mortes a mais de crianças em situação de risco até 2030. E isso era só o começo.

Logo Temer aprovou, com a ajuda de deputados aliados, a proposta de terceirização irrestrita e, em seguida, a Reforma Trabalhista. O governo vendeu a esperança (equivocada) de que as medidas criariam empregos, mas o que vimos foi justamente o contrário: o crescimento do subemprego, retirada de direitos conquistados duramente pelos trabalhadores e a precarização da relação entre patrão e empregado, sem qualquer crescimento econômico.

O pior golpe contra a população chegou a ser ensaiado, mas não foi executado: a reforma da Previdência Social. O presidente apresentou o projeto que reformava o sistema previdenciário, aprofundando as desigualdades e punindo o trabalhador braçal, ao mesmo tempo que mantinha privilégios das Forças Armadas e do Judiciário, por exemplo. Mais uma vez Aliel foi frontalmente contra. No entanto, alvo de graves denúncias, Temer acabou sem condições de garantir a aprovação da medida. Como se não bastasse, em meio a isso tudo o Governo ainda tentou promover a volta do trabalho escravo e avançou sobre a Amazônia, encontrando forte resistência da sociedade.

Dessa forma, parte do caos social vivenciado agora e que coloca nossa república em xeque já havia sido “previsto” por Aliel há dois anos. Ao pedir nova eleição o deputado, com a coragem dos seus 27 anos, não defendia interesses imediatos, mas sim o aval das urnas para decidir qual projeto de país seria desenvolvido. Por mais que não tenha sido compreendido naquele momento, o retrocesso que vivemos agora mostra que Aliel tinha razão.