Correio dos Campos

Velhices

* Por Daniel Medeiros, doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo
13 de Maio de 2021 às 18:00
(Foto: Divulgação)

Quando eu nasci, a expectativa de vida no Brasil era de pouco mais de 50 anos. Ou seja, se eu tivesse a idade que eu tenho agora naquele tempo eu já seria considerado velhíssimo. No entanto, as melhorias no padrão médio de saúde, habitação, trabalho e tecnologia fazem de mim, agora, um homem de meia idade, com pelo menos mais vinte ou vinte e cinco anos de vida ativa, antes de entrar na categoria dos realmente velhos. Ou seja, ganhei um tempo enorme para saber o que ainda fazer da vida.

Sempre quis ser velho, porque acho ser velho algo muito digno, mas a modernidade pregou-me essa peça e, por isso, quando digo hoje para as pessoas que estou velho – porque é bacana e porque sinto-me alegremente assim, no meu terceiro cavalo – recebo reprimendas com olhares de quem não está brincando, como se eu tivesse dito algo imoral ou tivesse comido algo que engorda muito. A velhice está se tornando uma espécie de tabu, como “aquela doença” ou “aquele problema na família”. Uma demonstração disso foi a polêmica em torno da campanha feita pela ONG Relate, no Reino Unido, sobre a intimidade sexual na velhice, sobre a continuação da atração pelo outro na velhice, sobre a permanência do desejo pelo corpo do outro na velhice, ainda que esse corpo esteja em fase de descoberta da inevitável força da gravidade e as reservas de colágeno já não sejam suficientes para encarar essa briga. Aliás, como eu sempre considerei desde muito jovem, o desejo não está na percepção do olhar, mas na reflexão da mente (obrigado, John Locke) e em como ela processa de maneira complexa o conjunto de informações que vêm juntas com a imagem desse corpo. Coisas que a idade normalmente ensina. E, às vezes, não.

A ideia contemporânea sobre a velhice tem deixado os velhos em uma situação de risco. Os mais jovens, de uma maneira geral, creem que a vitalidade física e a longa estrada de tempo que supostamente têm à frente, dá a eles uma primazia em termos de cidadania e, por isso, sentem-se incomodados com os mais velhos que estão em suposta “vantagem legal”, na fila do supermercado, no aeroporto ou mesmo em situações cotidianas, quando, por exemplo, demoram para entrar no carro do Uber. Da mesma forma, acham “cute” quando veem duas pessoas com bastante idade namorando ou acham “terrific” quando uma delas faz alguma atividade – normalmente física – como dançar, pular, correr, carregar coisas – que não poderiam estar fazendo, afinal são velhos ou velhas.

Penso, então, nas pessoas jovens que ficaram velhas rapidamente, passando a jato pela vida e então morreram gloriosamente. A primeira imagem que me vem à cabeça é Noel Rosa, morto aos 26 anos, depois de ter revolucionado o samba brasileiro e composto mais de 250 canções. E também Cazuza, aos 32 anos, tendo realizado uma vida artística completa e marcado para sempre a música brasileira. Como também Nara Leão, morta aos 46, ou Raul Seixas, aos 44. E o que dizer de Torquato Neto, que achou que já tinha vivido o bastante aos 28 anos? Ou Glauber Rocha, que completou seu ciclo genial e inesquecível aos 42?

Penso também nas pessoas velhas que nos encantam e nos fazem perder o fôlego com tanto talento – e que os muitos jovens ressentidos insistem em dizer que são pessoas com “alma jovem”- como Fernanda Montenegro ou Ary Fontoura, ou Habermas ou Edgar Morin, ou Anthony Hopkins ou, bom, a ideia é essa e creio que já está bem exemplificada.

Quando nasci, as pessoas morriam cedo porque o país não era capaz de garantir um tempo de existência mais longo para elas, embora viver muitos anos ou poucos anos não signifique realmente viver bem. Hoje, depois de alguns governos que melhoraram as condições gerais do país – enquanto outros fazem um pouco de tudo para reverter essas conquistas – as pessoas existem por mais tempo. Com a Medicina avançando, as próximas gerações chegarão aos cem anos com facilidade. É muito tempo para existir. E esse parece ser o grande xis da questão: existir não é exatamente igual a viver. Porque podemos encerrar o acerto com a nossa biografia aos 20, aos 40, aos 60 ou aos 104, como Oscar Niemeyer, tendo vivido muito ou existido muito. Viver é fazer desse tempo por aqui um testemunho útil e/ou fascinante da nossa existência, como pessoas de todas as idades – viva Greta Thunberg! – fazem, diariamente.

Gosto da ideia de ser velho, porque vivi intensamente minha juventude e minha vida adulta, balançando em meio às cordas, umas tensas, outras frouxas das minhas decisões, gritando sempre ao contra regra: “sem rede de proteção!”. Agora, a calma que a memória desses tempos agitados e a certeza de que eles já ocorreram, enchem-me de vitalidade para um viver mais epicurista, de prazer com discernimento, de desejos moderados. Como um livro que nos envolve e acaricia, mas que sabemos que chegará à última página. Seja a Metamorfose de Kafka ou as Putas Tristes de Garcia Marquez; seja um grande romance de Pasternak ou Lúcio Cardoso; seja Ratos e Homens ou Vinhas da Ira, o importante é que, no fim, eu tenha saboreado cada página e, então, feche o livro e repouse minha cabeça na poltrona e (en)cerre os olhos para estender o prazer da jornada para o infinito. E além.